Por NELSON TOWNES
Especialmente escrita para a edição atual da revista MOMENTO, de Porto Velho.
Reprodução de fotos de Danna Merryl, e de anônimos do arquivo pessoal do autor
Na sexta-feira (9) passado completou cem anos que o legendário médico e sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz aportou em Santo Antonio do rio Madeira. Mas, não saiu do navio.
No dia seguinte,10 de julho de 1910, ele pisou pela primeira vez na vila hoje extinta, e que distava sete quilômetros de Porto Velho, a pequena porém moderna cidade em que havia se transformado o canteiro de obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Oswaldo Cruz já era uma personalidade nacional por ter erradicado a febre amarela do Rio de Janeiro, era o sanitarista mais respeitado do Brasil, e havia sido contratado por Percival Farquhar para fazer saneamento ambiental em Porto Velho, nos locais da obra, para combater a malária que ameaçava novamente impedir a construção da ferrovia.
Duas tentativas de construir a Madeira-Miamoré haviam fracassado cerca de 30 anos antes e levado a falência a maior empresa ferroviária inglesa, a Public Works e sua sucessora norte-americana P & T Collins, atacadas pelo que o falecido seringalista do rio Candeias, Bráulio Townes Castro (meu pai) definia como a maior fera da floresta amazônica, “o mosquito”; “o mortífero e infindável mosquito transmissor da malária.”
Oswaldo Cruz vinha para a luta com sacrifício pessoal e coragem. Ele próprio tinha problemas de saúde, tinha insuficiência renal, tanto que trouxe como companheiro de viagem seu médico particular e amigo Belizário Pena. Oswaldo Cruz morreria sete anos após vir a Porto Velho. O genial cientista tinha apenas 44 anos de idade.
Mas, tão difícil quanto enfrentar a malária, era, para Oswaldo Cruz, suportar a saudade de sua mulher Emília da Fonseca, que ele chamava de Miloquinha, e de seus filhos pequenos, a família que ele deixou no Rio de Janeiro.
“Minha vida aqui tem sido de trabalho em que procuro afogar o caudal de saudade que me devora. Levo a examinar os numerosos doentes existentes no hospital (da Candelária), ao lado de que móro, trabalho no laboratorio, estudo embriagando o tempo afim de que não faça muito soffrer esta ausencia da família” – disse ele numa carta escrita em Porto Velho. A grafia é da época.
Nessas cartas, Oswaldo Cruz descrevia o cenário que encontrava em Santo Antonio, em Porto Velho, nos trechos em obras.
Essas cartas de amor, estritamente familiares, transformaram-se numa preciosidade histórica, o chamado “Dossiê Miloca”, o relato da grande façanha de sanear a região de Porto Velho e permitir a conclusão da ferrovia iniciada meio século antes, no século 19.
Nós a reproduzimos, mantendo a ortografia de 1910 para ressaltar o efeito de época. E o leitor que, como de hábito, acompanhar mais este texto de NoticiaRo.com até o fim não se arrependerá.
As cartas, sempre carinhosas, não revelam a energia que Oswaldo Cruz teve que usar aqui para combater a infestação pela malária.
Como relatam os arquivos do Instituto Manguinhos, a presença de sanitaristas enérgicos tornava-se crucial para viabilizar a construção de hidrelétricas e ferrovias (a propósito, quem são os sanitaristas das hidrelétricas do Rio Madeira? )pelo interior do país, “utilizando a experiência adquirida nas campanhas de saneamento do Rio de Janeiro, então capital da República.”
E Oswaldo Cruz implementou “medidas drásticas”. Por sua ordem “os operários deveriam ser submetidos a cuidados sanitários antes da chegada à ferrovia.”
Ele exigiu que fossem “construídos galpões para alojamento pessoal e demarcados locais para defecação”.
A água tinha que ser fervida e passou a ser exigido o uso de calçados e roupas especiais, no mínimo camisas de mangas compridas. Instituiu exames periódicos, além do fornecimento diário de quinino.
Outra ordem de Oswaldo Cruz que a direção da ferrovia acatou: “Os operários que não tomassem quinino eram descontados no salário, mas, se os operários passassem algum tempo sem acessos de malária, recebiam gratificação.”
Assim, prosseguiu a construção da ferrovia não obstante as muitas mortes que ocorriam por outras doenças além da malária (que teve uma redução drástica), ataque de feras da selva, de índios e acidentes.
AMOR, SAUDADES E A LUTA CONTRA A MALÁRIA:
O DOSSIÊ MILOQUINHA
Entre no Dossiê Miloca, ou “Miloquinha” como falava Oswaldo Cruz, em que relata para sua mulher o que acontecia em Porto Velho em 1910. Continuamos mantendo a grafia da época. Suprimimos alguns trechos não relacionados com o hoje Estado de Rondônia:
Pará, 28 de Junho de 1910
Minha querida Miloquinha
(...) Tenho estado prezo aqui mais tempo do que desejava porque houve uma greve á bordo do navio do Lloyd (Acre) que me terá de levar a Manáos, donde partirei em navio especial para o Madeira. Espero porem partir amanhã (29) á tarde
(...) Não imaginas a romaria de visitas que tenho recebido o que me tem elevado ao auge a sentir irritação de nervos. (...) o chaleirismo está incomensuravel.
(...) Adeus minha querida amiga. Que o Bom Deus te conceda toda serie e modalidades da felicidade de que és tão merecedora. São estes votos que no meio dos mais carinhosos beijos d’aqui te envio.
Muitos carinhos saudades e lembranças a nossos queridos filhinhos e muitas saudades a todos os nossos. Diz a Lizoca que mandei buscar para ella um livro allemão, que me mostrou uma pianista (...) e onde vem os retratos e biographias de todos os gdes musicos conhecidos.
Adeus minha querida, mais beijos e votos de felicidades do teu saudosissimo
Oswaldo
Muitas lembranças à Mamãi.
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Santarém, 2 de Julho de 1910
Minha querida Miloquinha
Foi necessário que o Governador do Pará, para me ser agradável, manda-me prender os foguistas revoltados do paquete "Acre" e os fizesse substituir por outros da armada para que nós pudessemos sahir a 29 a tarde de Belem. No Pará o calor era abrazador, aqui no rio Amazonas, porém a tempestade caiu e tem mesmo feito um pouco de frio. Estou installado num explendido camarote de luxo offerecido pela Companhia ingleza "Port of Pará".
Como te dizia em minha ultima carta o Governador me pediu para fazer a Campanhia contra a febre amarela no Pará o que accedi, impondo as condições, sobretudo relativas ao pessoal e a não interferencia da política. Depois da conferencia qu tivemos elle não mais me falou no assumpto e julgo q. ficou desanimado com as condições que impuz. Aguarde a volta para ver o que ha de resolvido.
Nossa viagem vai agora muito atrazada porque o navio está andando pouco por falta de practica dos nossos foguistas. Não imaginas que pessimos companheiros de viagem temos: seringueiros e aventureiros de toda a especie sem a minima educação e uma leva de mulatos cearenses de vida airada e que levam fazendo uma formidavel algazara á bordo. - Deixei hoje cair meu relogio ao chão e quebrei-o de modo que vou fazer a viagem sem relogio não havendo tempo de fazel-o concertar em Manáos.
Aqui á bordo graças a solicitude de Belizario (o médico Belizario Pena) continúo a seguir cuidadosamente o regime alimentar e tenho passado admiravelmente. Esperamos chegar a Manáos no dia 5 seguindo immediatamente pa o Madeira onde devemos chegar a 14 de Julho mais ou menos.
(...) Adeus minha querida e bôa amiga, muitas carícias e saudades a nossos filhinhos: lembranças a todos os nossos e muitissímos saudosos beijos e carinhos de teu cada vez ms saudoso
Oswaldo
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Porto Velho de Santo Antonio
11 de Julho de 1910
Minha querida Miloquinha,
Chegamos aqui hontem á tarde após explendida e rapida viagem tendo gostado apenas 5 dias de Manáos até aqui o que constitue excepção sobretudo nesta época em que o rio está descendo e não póde viajar á noite.
Fui muito bem recebido em Manáos onde o Governador foi me buscar á bordo, tendo sido eu hospedado na casa d’um dos empreiteiros do Cia o Snr May um activo americano, moreno com cara de brasileiro. (Randolph May, um dos testas de ferro de Farquhar no gerenciamento das obras da Madeira-Mamoré.)
Não imaginas como essa gente me tem tratado: como um verdadeiro príncipe (...) e depois de indagarem ao Belizario da minha dieta etc. poz um cozinheiro pra meu regime e durante toda a viagem, nessas paragens onde não ha recursos fui
alimentado a vegetaes, ovos, gallinhas, doces, aguas mineráes, enfim tudo quanto podia desejar.
(...) Enfim todo o conforto possivel numa grande cidade tenho aqui nessas inhospitas passagens. São verdadeiramente inhospitas! O impaludismo reina aqui de maneira assombrosa.
Visitamos hontem a cidade de Sto Antonio. Não podes imaginar o que seja. Qualquer descripção por mais pessimista ficaria aquem da realidade. Basta que te diga que na cidade não ha um só habitante filho do lugar. Todas as crianças que ali nascem morrem infallivelmente e as poucas ahi nascidas estão de tal modo doentes que fatalmente morrerão breve.
A immundicie é incrível. Para dar um ideia pallida do que é ella basta que te diga que matam os bois nas ruas e ahi abandonam as visceras cabeça etc. que deixam apodrecer em plena rua, e o máo cheiro é de tal ordem que quase se fica suffocado. Estou horrorizado com tanta porcaria!
Adeus minha querida muitos carinhos a nossos filhinhos, saudades a todos e muitos beijos e saudades de teu saudosissimo
Oswaldo.
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Porto Velho, 13 de julho de 1910
Minha querida Miloquinha
(...) De saúde vou admiravelmente fazendo uso diario de quinina. Fiz hontem o percurso de toda a linha até a extremidade dos trilhos: cerca de 120 kilometros. Sahimos ás 7 h. am e viajamos, parando apenas para o almoço até 10 horas da noite.
Fomos além do rio Jacy-Paraná. Estudei os acampamentos dos empregados e fiz as indagações que se me afiguraram de utilidade. A linha é admiravel, rasgada toda no meio da floresta virgem offerece espectaculo grandioso, mostrando a riqueza consideravel deste verdadeiro El Dorado.
É de lastimar que a tanta riqueza esteja associada a Morte: onde não reina exclusivamente o impaludismo de caracter pernicioso impera o beri-beri.
Nada temos porém, a receiar: os cuidados meticulosos que temos hão de nos preservar, como preservados estão todos os medicos que aqui residem.
Minha vida aqui tem sido de trabalho em que procuro afogar o caudal de saudade que me devora. Levo a examinar os numerosos doentes existentes no hospital, ao lado de que móro, trabalho no laboratorio, estudo embriagando o tempo afim de que não faça muito soffrer esta ausencia da familia.
Estou tudo dispondo para sahir daqui dentro de 15 a 20 dias e se assim for, ahi estarei na primeira quinzena de Setembro. Pelo telegrapho sem fio (NOTA DO EDITOR: a ferrovia ainda está em obras e a época é anterior a chegada de Rondon com sua linha ligando Cuiabá a Porto Velho) te passei um telegramma noticiando minha chegada aqui.
Creio que de V.V. não terei noticias senão na volta! As communicações para aqui são tão dificeis!
Adeus minha querida, beija e acaricia muito nossos filhinhos. Pede ao Bentinho que estude bem. Saudades a todos, muitos beijos Mamãi a quem peço dês noticias.
Saudades caricias e beijos de teu saudosissimo Oswaldo
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Oswaldo Cruz permaneceu 28 dias em Porto Velho e região. Em setembro, informa o Instituto Manguinhos, entregou à companhia que construía a ferrovia relatório com observações que fundamentavam as medidas preconizadas.
“Examinava as características ambientais dos rios Madeira e Mamoré. História natural e ecologia eram indispensáveis à compreensão do quadro nosográfico local, intrincada trama formada por humanos, patógenos e vetores associados à fauna flora.
“O regime de águas do complexo hidrográfico - as cheias seguidas de vazantes, provocando a formação de pântanos e poças – que favoreciam a existência de "aluviões de mosquitos" transmissores da malária.
Oswaldo Cruz disse que o baixo Madeira era um rio salubre, mas seus afluentes não. “Além da importuna fauna insetívora, de animais e plantas venenosas, hábitos humanos concorriam para a gravidade das doenças: a péssima alimentação dos seringueiros e as condições sanitárias de Santo Antônio, sem sistema de esgotos e coleta de lixo, com buracos pelas ruas a formar coleções de água que levavam à infecção pela malária de toda a população do povoado, "sem exagero."
Oswaldo Cruz elogiava a companhia “por estabelecer seu pessoal em Porto Velho, à época com 800 habitantes, por dotar a cidade de sistemas de abastecimento de água e esgotos e construir as casas em locais elevados e protegidas contra mosquitos.”
Quanto ao Hospital da Candelária, qualificou-o “com instalações e equipamentos de um hospital urbano - inclusive pavilhão para isolamento de tuberculosos e amarelentos - e quatro médicos, hábeis nos exames clínicos e laboratoriais “
O cientista observou que dos 11 médicos existentes, cinco tinham experiência em doenças tropicais, adquirida na construção do canal do Panamá.
Postado por NoticiaRo.com no sábdo, 10 de julho de 2010 – cem anos do Dossiê Miloca, de um tempo de sofrimento, sacrifício, trabalho, honra e respeito e responsabilidade por esta Porto Velho que nascia com orgulho e amor.
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